DISCURSO DE POSSE DA PROF.ª DR.ª LUISA GALVÃO LESSA NA PRESIDÊNCIA DA ACADEMIA ACREANA DE LETRAS -- BIÊNIO 2015-2017
Prof.ª Dr.ª
Luísa Galvão Lessa Karlberg

E, nesta
breve mensagem eu me curvo diante deste sodalício que me elegeu à Presidência
da mais elevada instituição de cultura do Acre: a Academia Acreana de Letras. Quem conhece o berço da imensa Selva Amazônica sabe de onde vim e dos
caminhos que percorri na vida. Muitos sabem como se faz para se alcançar os
frutos no alto das árvores e vencer os medos na misteriosa floresta que
embala as nossas vidas. Aprendi, desde
cedo, a olhar acima da copa das árvores e saber que havia um mundo para
conquistar e o caminho era o da educação, das Letras. E nessa área fui aluna de
graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado. Levei a vida inteira a estudar,
desde os 5 anos de idade.
Sou uma cabocla, mesclada com o
sangue português e holandês, mas me vejo, hoje, tomada de emoção. Não de
tristeza, mas de intensa gratidão aos nobres confrades que a vida me presenteou
como bons e fraternos amigos. Os senhores sabem, assim como eu, que nas grandes
batalhas da vida, o primeiro passo para a vitória é o desejo de vencer. Esse
sentimento sempre me moveu. A vida exige de nós - o tempo todo - uma grande
capacidade de adaptação, mudanças, enfrentamentos, superação. E aqueles que
temem a mudança nunca vão adiante, levam uma vida estática por medo de novos
desafios decorrentes da própria existência. E os fracos, somente os fracos, vivem com a
cabeça. Receosos, eles criam em torno deles uma segurança baseada na lógica.
Com medo, fecham todas as janelas e portas - com teologia, conceitos, palavras,
teorias - e do lado de dentro dessas portas e janelas fechadas, eles se
escondem. Eu não me escondo, não tenho a alma subalimentada de sonhos, sempre
fui à luta, ‘caí no mundo’, como se diz popularmente. E foi nele que aprendi as
lições mais sublimes, que redimem meus pecados e lavam a minh’alma feminina,
forte e livre para ir adiante, com dignidade.
Sempre
procurei superar os desafios desde muito jovem. Sai de casa aos seis anos de
idade para um colégio alemão. Agarrava-me às pernas de meu pai para não ir para
longe e ele me dizia: “filha, é preciso ir, estudar é a saída para quem não
possui riqueza material”. Foi aí que comecei a aprender a transformar
sentimentos menos elevados em prol da grandeza da vida, da escola, do
conhecimento. Compreendi, desde muito jovem, que o caminho do coração é o
caminho da coragem. Deixar o passado para trás e fazer o futuro SER. Também
aprendi que a vida é perigosa, mas somente os covardes podem evitar o perigo,
mas aí já estão mortos. Somente quem nasceu ou viveu no seio da Floresta
Amazônica, como eu -- dentre tantos outros aqui presentes – sabe o significado
dessa palavra CORAGEM. Ela vem da raiz cor, que significa coração. Portanto,
ser corajoso significa viver com o coração.
E, agora, para enxugar o meu
pranto, neste momento de intensa emoção – quando vejo o filme de muitas
histórias da minha vida – eu digo o seguinte: - o Amor e a Ternura são
sentimentos revolucionários, eles sempre deram norte à minha vida, assim como o
saber, a cultura, os meus pais, minhas duas filhas, meus dois netos, os amigos,
minha sublime profissão de professora, pesquisadora, educadora. Desta última,
fiz meus votos de fé. Tem dado certo. E o melhor de tudo é que embora não
estejamos diante do mesmo espelho, estamos nos olhando sempre. Como diz
Guimarães Rosas “o mais importante e bonito do mundo, é isto: que as pessoas
não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre
mudando”. Afinam ou desafinam. E tudo
indica que vamos afinar ainda mais a canção acreana e porque não dizer
brasileira, com essa Diretoria “TECIDO DA CULTURA ACREANA”.
Aqui, fiz breve relato da mulher
que hoje se coloca diante da sociedade acreana como Presidente da Academia
Acreana de Letras. Nesse cargo dedicarei o melhor dos esforços para cumprir os
objetivos da AAL diante da sociedade regional e brasileira. Sou do mundo das
Letras, e sei que produzir literatura é algo difícil para quem vive mergulhada
no mundo da ciência. Mas eu já compreendi que a literatura antecipa a
existência. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios, como está fazendo agora.
Pois é a literatura uma arte que nos defende contra as ofensas da vida.
Esta Casa, que a partir de agora presido, é uma Academia. A importância
das Academias de Letras flui do liame profundo que existe entre estes
sodalícios e a cultura. Aqui, no Acre, sua importância salta aos olhos mais
atentos de quem olha a cultura como um motor que traduz a vida em sociedade.
Isso porque Cultura significa cultivar,
do latim colere. Genericamente, a cultura é todo aquele complexo que
inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes
e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano.
E, nesse contexto cultural, aqui no Acre, a Academia Acreana de
Letras é, possivelmente, a maior referência no mundo cultural do Estado, uma
vez que seus membros, chamados “imortais”, traduzem o lastro cultural do povo.
Sendo assim, uma Academia tem o condão de desabrochar aspirações, e de
estimular o desenvolvimento da literatura, além de premiar os méritos dos seus
mais destacados cultores das letras. Deve penetrar nas regiões do Estado e
fazer florescer os gênios dos vales do rio Abunã, Acre, Purus, Juruá. Neste
último faço reverência ao meu berço natal: Tarauacá.
Então, falar em Academia é pensar
em livros, penetrar na noite dos tempos para encontrar auroras boreais. E, com
esta intenção, tateando no desconhecido,
pouco a pouco, descobrem-se os
indícios primeiros da arte de pensar. O fluir da vida vai acumulando
experiência e sabedoria no delta da maturidade, que passa a ser um bem comum,
usufruído por todas as gerações e idades, constituindo-se, desse modo, em
patrimônio da própria sociedade.
Na Academia Acreana de Letras, cada
geração deixa um legado: Amanajós de Araújo, Paulo Bentes, Omar Sabino de
Paula, Mauro Modesto e Clodomir Monteiro da Silva. Processo vagaroso, a exigir
tempo para tomar corpo e se mostrar. Assemelha-se à formação do universo que,
em movimento rotatório, vai condensando energia, gás e luz, até assumir a
fosforescência das galáxias, em expansão contínua, onde brilha a centelha da
criação.
Por isso tudo, entendo que uma
Academia deve espelhar a alma, retratar o espírito, expressar a gênese e as
potencialidades de um povo. Guardiã zelosa da língua, o maior patrimônio
nacional, a Academia Acreana de Letras deve corrigir desvios, depurar o idioma
e preservar sua integridade
expressional. Nada distingue mais um povo do outro que sua literatura. No Acre,
cabe à AAL resguardar as fontes puras de onde brotam o sentir e o externar das
gentes, trabalhá-las e difundi-las para criar a literatura própria,
imprescindível de um país enquanto nação. Será nesta Academia que deverão se
organizar as trilhas literárias da região e do Estado. Nós, deste sodalício,
confreiras e confrades, somos os herdeiros do esplendor do conhecimento humano.
Vamos assumir nosso papel, a sociedade nos convida a este dever.
Neste
pretendido mandato, a AAL deverá estar presente nas mais diversas discussões
sociais, políticas e de caráter comunitário, devendo ser representada em vários
conselhos, em nível federal, estadual, municipal. Também deverá promover,
periodicamente, debates sobre questões atuais ou problemas regionais, assim
como incentivar a produção literária e cultural no Estado do Acre.
Deverá,
esta Academia, encadear discussões de natureza diversa:
Ø O idioma pátrio e a literatura
de expressão regional;
Ø Trabalhar as questões culturais por bacias
hidrográficas, com a participação efetiva dos acadêmicos, para descortinar o potencial humano dessas bacias; o potencial
literário; o potencial histórico; o potencial ecológico; o potencial econômico,
enfim, tudo aquilo que espelhar a cultura regional.
Ø Deverá a Academia otimizar
políticas, junto ao Governo do Acre, para organizar antologias dos movimentos
literários, para dar a conhecer ao Acre e ao país os monumentos de
expressão acreana, bem como:
Ø
Incentivar e promover encontros culturais para sedimentar, sempre, a
produção literária;
Ø Estimular os Acadêmicos para
profícua atuação junto à sociedade, no sentido de promover oficinas de:
· textos;
· crônicas;
· Poesia;
· Gêneros Literários.
Ø Deverá a AAL realizar
encontros de confraternização no meio acadêmico, não somente para festejar a
arte do encontro, mas também para conhecer as produções dos confrades e
confreiras, no sentido de confeccionar Antologias e discutir estratégias para
divulgação das produções dos acadêmicos.
Ø
Deverá fazer Concursos literários para incentivar novos talentos. Criar os programas "A Escola vai à Academia e a
Academia vai à escola", para que os estudantes conheçam os
acadêmicos escritores, cronistas, poetas, historiadores, juristas, literatos,
linguistas e demais profissionais.
Essas propostas reúnem um
pedaço do grande “TECIDO DA CULTURA ACREANA” que iremos tecer, de forma
harmônica e compartilhada, sodalício, entidades, governos e sociedade
organizada.
Essas propostas justificam o título
da Diretoria” TECIDO DA CULTURA ACREANA” e de todo sodalício. É como pensa Max
Weber, que o ser humano é um animal amarrado em teias de significação que ele
mesmo teceu. O estudo da cultura não deve ser experimental à procura de leis,
mas interpretativo, à procura do significado (Geertz, 1989, p. 15). Assim, como tecedor da cultura, o sujeito
caracteriza-se pela atividade;
é (re)criador/construtor da estrutura
teia que o
prende. Está-se diante
da própria ideia de complexus,
isto é, o que é tecido em conjunto, como diz
Morin, (2001, p. 20). Assim, ao
tecer a cultura (teia), o sujeito
é tecido em
conjunto (tece-a ao tempo em que
é tecido nela).
De tudo que aqui falo, reflito, manifesto, digo aos senhores,
senhoras, ao sodalício da AAL, que poderão apertar minhas mãos e sentir que
estou afinada com a arte, a cultura, a vida e o humanismo. E que deixaremos, nessa
geração de imortais, imenso legado cultural e intelectual como lição àqueles
que chegam depois.
Conclui-se com a
célebre frase de Johan Kennedy:
“A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou
para o presente irão, com certeza, perder o futuro”. Iremos trabalhar para
dignificar a Academia Acreana de Letras, aproximá-la dos escritores, poetas,
cientistas e a comunidade do Acre e do mundo. Aí, então, como diz o hino
acreano:
(...) ergueremos então
destas zonas
Um tal canto vibrante e viril
Que será como a voz do Amazonas
Ecoando por todo o Brasil
MUITO OBRIGADA!
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